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Página 1 de 3 Admirada no Brasil e idolatrada na Itália, nasceu em 30 Agosto de 1821 vindo a falecer em 04 de agosto de 1849, a humilde jovem lagunense Ana Maria de Jesus Ribeiro, conhecida como Aninha do Bentão, uniu-se a um revolucionário, foi soldado, enfermeira, esposa e mãe. Em todos os papéis, sua batalha sempre foi travada em nome da liberdade e da justiça. Tornou-se assim Anita Garibaldi, a "Heroína dos Dois Mundos".  Menina de origem humilde, sem nenhuma instrução, calça seu primeiro sapato já moça. Porém, possui uma tenacidade e um amor à liberdadesó reservada aos grandes vencedores. Assim Garibaldi refere-se a Anita, quando dita sua biografia a Alexandre Dumas: "Era Anita a mãe dos meus filhos, a companheira da minha vida nas boas e nas más horas, a mulher cuja coragem tantas vezes desejei fosse minha". Foi dentro desta cumplicidade, só existente entre quem vive um grande amor, como o que viveram Anita e Garibaldi. Anita participa das lutas em Imbituba, na tomada de Laguna, e em Curitibanos, onde foi capturada. Consegue fugir e em Lages, às margens do Rio Pelotas, cuida dos poucos sobreviventes feridos. Seus gestos de bravura e coragem, quando em defesa de seus ideais de liberdade, lhe renderam o título de "Heroína dos Dois Mundos" (recebe este título em função de ter lutado primeiramente aqui na América e morrer lutando na Europa, mais precisamente na Itália, por seus ideais). Na atitude natural dessa heroína simples existe a força convincente de um símbolo. E é cultivando nossos heróis que assumimos os compromissos do presente, dos quais resultarão as realizações do futuro. Em meados de 1836, Bento Gonçalves instaura o governo da Nova República Rio-Grandense. Nessa época, Ana de Jesus Ribeiro, ou simplesmente Anita, deixa para trás sua adolescência, firmando-se com um caráter independente e resoluto, e Giuseppe Garibaldi desembarca no Rio de Janeiro, iniciando um exílio que durou 10 anos. Nessa cidade Garibaldi conhece Lívio Zambiccari, Secretário de Bento Gonçalves e Luiggi Rosseti, que lhe falam do Movimento Farroupilha. Alista-se a este Movimento como corso, recebendo a patente de Capitão-Tenente a serviço da República rio-grandense. Ele luta com tanta bravura e idealismo, incorporando de tal maneira a figura do gaúcho, que já velho, na Itália, aparece vestindo o poncho e o lenço vermelho, símbolos da Revolução Farroupilha. FONTE: Texto: Lígia Stoeterau - Historiadora
"Filha do povo""Ana não era nenhuma formosura de dama unânime e universal, mas tão somente uma fisionomia a traços puros e severos, revelando um espírito varonil, inabalável em seus sentimentos e afetos. Era uma dessas filhas do povo a quem a natureza dotara com caracteres definitivos, imutáveis, almas austeras, amando uma só vez na vida e com abnegação e heroicidade." (Virgílio Várzea) "Luz e fascinação" "Sem ter sido formosa propriamente, nem possuidora de sólida cultura, onde quer que Anita Garibaldi aparecesse, dela se irradiavam a luz e a fascinação de uma extraordinária personalidade, duma vontade inquebrantável e senhorial; luz e fascinação poderosas a ponto de constrangerem ainda hoje - impossível a presença física de Anita - até mesmo a um pessimista que se dispuser a detalhar a biografia. A mera curiosidade inicial do estudioso brevemente cederá lugar à atenção maior..." (Wolfgang Rau) Caráter era "independente e resoluto" "Desde cedo ela revelou caráter independente e resoluto e uma singular firmeza de atitudes. Além disso muito amor-próprio e a coragem e a energia que certamente herdara do pai. Não tolerava certas liberalidades, naqueles tempos de rígidos costumes. O seu temperamento levava-a, por vezes, a atitudes que causavam sérios desgostos à atribulada mãe". (Ruben Ulysséa)
Terra natal ganha estátua em 1964 Inauguração do monumento integrou atividades que lembraram os 115 anos de morte da lagunense. Anos antes, começou-se a falar no translado das cinzas de Anita Anita só ganhou uma estátua em sua terra natal 115 anos após a morte, resultado dos esforços de um grupo que batalhou 14 anos para concretizar o objetivo. A inauguração ocorreu em setembro de 1964, mas o movimento começou no dia 10 de julho de 1955. "A não existência de vistoso monumento consagrado à memória de Anita é lacuna imperdoável", assinalava o escritor Ildefonso Juvenal.
União com o desterrense Manoel Duarte de Aguiar, em agosto de 1835, não trouxe filhos nem alegrias para Aninha. Infeliz, não hesitou em acompanhar sua grande paixão
Ana Maria de Jesus Ribeiro casou-se em 30 de agosto de 1835, na Igreja Matriz de Laguna com Manoel Duarte de Aguiar, um sapateiro nascido na Barra da Lagoa ou Ingleses, em Desterro, hoje Florianópolis. O registro encontra-se no Livro de Casamentos de 1832 a 1844 da mesma igreja, assinado pelo padre Manuel Francisco Ferreira Cruz, atualmente sob os cuidados do Arquivo Episcopal de Tubarão.
As razões para o fracasso do casamento, apontadas pelos que escreveram sobre Anita, são diversas e muitas delas destinadas a justificar o fato de haver deixado Manoel Duarte para ficar com Giuseppe Garibaldi. A conclusão mais razoável é a de Wolfgang Rau. Primeiro, ela foi "gravemente negligenciada e mesmo abandonada por seu primeiro marido". Segundo, porque Manoel, "após o casamento, continuou com seu trabalho, limitado a bater solas, gostar de cachorros e de pescarias noturnas. Dificilmente se lhe via um sorriso; acanhado com as pessoas estranhas, provia, metódico e organizado, o difícil pão de cada dia".
Com o passar do tempo, ainda segundo Rau, o marido de Aninha passou a "demonstrar em casa o seu caráter conservador e ciumento. Avesso às mudanças de situação, era reacionário a todas as novidades. Viu-se, pois, Aninha trancada entre paredes, levando vida apagada e monótona, sem ao menos ter com quem expandir suas idéias ou a quem relatar seus sonhos, originados de exaltada imaginação, em procura permanente de horizontes mais dilatados. Em breve, compreendeu não estar realizada ao lado do pacato marido, o qual não lhe confirmou, sequer, fecundidade".
Introvertido, "era de todo e por tudo inadequado para esposo de Anita; passado o primeiro momento de vida em comum, revelou-se aos dois o erro desse matrimônio omisso de maturidade. Sem filhos e sem alegrias partilhadas, veio a ficar-lhes apenas o arrependimento de terem casado". Em resumo, um casamento "falho de prazer e de fruto", complementa Rau.
Na introdução ao precioso "Anita Garibaldi - Uma Heroína Brasileira", de Wolfgang Rau, Oswaldo Rodrigues Cabral critica os "historiadores ufanistas", que procuram encontrar uma "justificativa para o ato de Ana de Jesus abandonar o marido e atirar-se nos braços de Garibaldi". Acha que não faz sentido pensar "que para ser uma heroína, para se ter ingresso na imortalidade, para se figurar no Panteão da História, é imprescindível atestado de boa conduta, folha corrida, carta e antecedentes ideológicos, atestado de vacina, CPF e outros documentos que nos situam no tempo e no espaço, a nós simples mortais, que figuramos do lado de Estes, segundo Cabral, "imaginam que o esplendor da imortalidade fica embaciado por falta do cumprimento de certas regras que marcam, na planície, o nosso comportamento de cada dia. Nada disto! É preciso que se diga que há muita santa venerada nos altares cujo pecado se não foi o de Anita, talvez tivesse sido muito pior... E que, para ser santa, não se lhe exigiu mais do que a coragem da fé, a bravura do martírio ou a penitência do arrependimento... Anita deixou o marido, abandonou-o porque se apaixonou pelo aventureiro de bela estampa, audaz, que lhe prometia (e lhe deu...) uma vida fora da obscuridade da Carniça ou do Passo da Barra. E está acabado o assunto".cá da aurora boreal da glória".
Estes, segundo Cabral, "imaginam que o esplendor da imortalidade fica embaciado por falta do cumprimento de certas regras que marcam, na planície, o nosso comportamento de cada dia. Nada disto! É preciso que se diga que há muita santa venerada nos altares cujo pecado se não foi o de Anita, talvez tivesse sido muito pior... E que, para ser santa, não se lhe exigiu mais do que a coragem da fé, a bravura do martírio ou a penitência do arrependimento... Anita deixou o marido, abandonou-o porque se apaixonou pelo aventureiro de bela estampa, audaz, que lhe prometia (e lhe deu...) uma vida fora da obscuridade da Carniça ou do Passo da Barra. E está acabado o assunto".
Uma grande paixão arrastou Aninha de Laguna. Ela seguiu Garibaldi, a quem conheceu em 1839, vivendo um romance que durou até a sua morte, dez anos depois, em 4 de agosto de 1849, em Mandriole, Itália. Aninha começou a virar Anita quando Garibaldi a conduziu triunfalmente por meia Itália para o túmulo em Nice. Foi quando se recordou sobretudo sua bravura militar nas batalhas de Imbituba e da Barra, a fuga espetacular na serra catarinense e na pequena São Simão gaúcha, a dedicação como mãe e sobretudo o profundo amor pelo marido, fatores que a transformaram em mito. Anita foi símbolo da Unificação Italiana. Seu nome foi "glorificado" para servir aos interesses do posivitivismo após a proclamação da República no Brasil.
A lagunense continua atenta. Nas décadas de 30 e 40 o mito serviu aos interesses no fascismo na Itália, no Brasil tinha a imagem usada pelo integralismo direitista, enquanto muitos núcleos do Partido Comunista se denominavam Anita Garibaldi, nome que foi dado à primeira filha do lendário Luís Carlos Prestes. Tudo isso simultaneamente. Tanto ecletismo talvez a incomode. Mas isso não desvia a sua atenção para o alarido sobre onde deverá, afinal, descansar em paz - se na ilha de Caprera, junto a Garibaldi, em Laguna, para onde falam em levá-la, ou onde está, no Gianícolo, em Roma.
Autores como Henrique Boiteux e Leite de Castro, os primeiros a escrever sobre Anita no início do século, omitiram o detalhe do primeiro casamento. Outros, como Valentim Valente e Wolfgang Rau, foram bem mais adiante. "Garibaldi sempre foi reticente com referência ao estado civil de Aninha ao conhecê-la, e isso induziu Alexandre Dumas e autores brasileiros e italianos a perfilharem a versão errônea de que era solteira (e o pai, 'ferrenho imperialista', teria tentado impedir o namoro)", assinala Valente. Rau acrescenta que "Garibaldi, e mais tarde os seus próprios filhos, ocultaram obstinadamente o fato de ter sido Anita casada em primeiras núpcias com Manoel Duarte". Em 1970, quando Rau conheceu pessoalmente uma neta de Anita, Giuseppina Garibaldi Ziluca, filha do general Ricciotti, citou o primeiro casamento, tendo ouvido um "mas não pode ser, meu pai nunca nos falou nisso!"
O destino de Manoel Duarte, depois que Aninha e Garibaldi se conheceram, não foi esclarecido até hoje, existindo diversas versões. Uns, como Rau, dizem que foi convocado para a Guarda Nacional, tendo se retirado da vila com as tropas legalistas, diante da vitória das forças rebeldes em Laguna. O mesmo autor ouviu de uma parente de Anita pelo lado materno (Leopoldina Antunes Dalsasso) que tanto o marido Manoel Duarte quando seu pai, Bentão, estariam "entrevados e de cama" na ocasião da chegada dos revolucionários farroupilhas. Também existe a versão de que Duarte morreu doente num hospital em Laguna. De todas elas, a versão mais intrigante é a que foi localizada pelo arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira, escrita por Taciano Barreto do Nascimento, bisneto do tio do primeiro marido, antigo inspetor escolar. Num documento datado de 6 de junho de 1935, analisado por Rau e por Licurgo Costa, são feitas algumas revelações supreendentes. "Segundo informações que tive de dona Lucinda Duarte, viúva de José Duarte, tio do meu pai, Manoel Duarte, marido de Anita, era sobrinho e filho de criação de João Duarte, avô de meu pai'." O mesmo Taciano informa que Anita, "ao casar-se com seu distante parente Manoel Duarte, fora morar na casa do seu bisavô, o referido João Duarte, no morro da Barra, em frente ao ancoradouro dos navios farroupilhas". Lá, "Garibaldi logo travou relações com João Duarte, sendo freqüentador da casa onde morava também Anita e seu marido", que teria sido "preso pelos soldados de Garibaldi e este apossou-se de Anita, com quem já andava de amores na própria casa de João Duarte, o qual ao saber do desaparecimento do sobrinho pediu a Garibaldi que o mandasse soltar". O italiano teria prometido soltá-lo mas, segundo depoimento de dona Lucinda a Taciano, mas "parecia" que os soldados farroupilhas "o haviam matado". Mas, também se dizia que Manoel Duarte fora efetivamente solto e, por vingança - "esta será a versão mais aceitável", segundo Licurgo - se alistara nas tropas imperiais. "Garibaldi então levou Anita para uma moradia no lugar denominado Rincão, bairro de Laguna, onde passaram a viver juntos", segundo o descendente de Manoel Duarte. O pesquisador Wolfgang Rau também considera essa hipótese a mais aceitável. Segundo Oswaldo Rodrigues Cabral, o fato de Aninha haver rompido o primeiro casamento "não causou escândalo extraordinário na Laguna. Ana era moça humilde, que não freqüentava a sociedade local mais classificada", assinala. "Evidentemente", completa, "provocou comentários, pois era mais uma das provas do comportamento reprovável dos revolucionários, cuja soldadesca não só submetia a população a maus tratos e vexames, como seus próprios chefes seduziam e furtavam dos lares mulheres inexperientes e crédulas." |